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 Ler um conto de vez em quando

 

   Nesta página, o autor insere um conto escolhido ao acaso, atualizado, do seu livro: Histórias que o Avô Deixou.

   Os contos irão sendo substituídos com o tempo, permanecendo pelo menos um mês. Terão uma numeração não na ordem que em estão no livro e se podem observar no link acima (22 contos), mas da sua inserção neste domínio, o que permite ao visitante saber quando há um conto novo.

 

Conto 1, em junho de 2020

O DIRIGENTE PARTIDÁRIO

 

  ..... partindo do futuro para o presente .....

 

 Conto 2, em julho de 2020

 

UMA PRODUÇÃO DE CARNE HUMANA

 

..... o supremo manjar daquela povoação.....

 

    Nos recônditos de uma floresta com o tamanho de um continente, havia uma população indígena muito antiga, antropófaga. Era a sua única hipótese satisfatória para alimentação de carne. Rodeada de línguas de água muito infestadas de agressivos jacarés repulsivos, há muito tempo que não havia um animal de quatro patas comestível nas vastas florestas inóspitas em redor.

    A solução tomada eram as suas investidas nas tribos longínquas, onde, por serem grandes ajuntamentos, conseguiam logo uma caçada volumosa. Além da longa e difícil caminhada, muitas vezes com a catana, na floresta virgem, com carreiros que desapareciam rapidamente no emaranhado da vegetação, havia logo a travessia das linhas de água. Os jacarés atacavam em grupo numeroso as pirogas, e durante muito tempo nenhuma resistira a estes ataques; até que a tribo conseguira descobrir uma erva repulsiva para esses animais, de que fez uma plantação. Era espalhando esta erva num pequeno troço das línguas de água, que podiam então atravessar para as caçadas.

    Nas longínquas aldeias indígenas que os canibais atacavam, arrepanhavam quantos podiam, preferindo mulheres gordas, também mais fáceis de apanhar nas perseguições, e os mais jovens, com preferência especial por crianças muito pequenas.

    Amarradas umas às outras, mais cuidado nas mães com crianças, as presas faziam depois a travessia pela floresta até às pirogas. Pelo caminho, os canibais iam violando as mulheres e assando no espeto os que fraquejavam de cansaço. A viagem de regresso pode-se dizer que era bem a grande compensação para os esforçados caçadores.

    Já na aldeia, os prisioneiros ficavam cercados por uma alta paliçada, longe do povoado, com guardas vigilantes. As presas eram incentivadas a se reproduzirem em quantidade, mediante mistura, nos alimentos, de pó de uma casca de árvore, muito afrodisíaco. Pode-se dizer que a população mantinha ali uma exploração de carne para a alimentação, comparável às explorações porcinas, avícolas, bovinas ou outras, de animais destinados a serem comidos, como nas civilizações humanas avançadas.

    Pela cor da pele, feições rudes e linguajar, os canibais pouco se distinguiam dos prisioneiros. A diferença distintiva, à vista, era o facto de que os habitantes da aldeia tinham todos uma pequena toga a tapar-lhes os órgãos sexuais, enquanto os prisioneiros estavam obrigatoriamente nus, na sua qualidade de gado. Além disso, os canibais eram muito zelosos na higiene, com uma zona na água, vedada aos jacarés, onde periodicamente se banhavam e com uma privada externa a cada cabana, com fossa esvaziada em dias marcados por uma brigada de escravos prisioneiros. Os dejetos eram lançados à água no lado oposto à margem onde estava situada a aldeia.

    Não havia banhos para os prisioneiros, e a fossa era comum, despejada ou não, ao arbítrio deles. O resultado era a zona da paliçada ser um ambiente pestilento, de que até os guardas se esquivavam quando podiam.

    Havia um matadouro, onde o gado humano era abatido, mas também sem crueldade. Pendurados pelos pés e com as mãos atadas, uma pancada violenta com um grosso taco, na nuca, punha logo os animais na inconsciência total. Só depois é que a rês era esfolada e cortada ao meio, com extração de órgãos, alguns lançados aos jacarés, pois que também convinha manter esses répteis abundantes, para segurança da comunidade.

    Num açougue especializado no corte da carne, as várias peças distintas eram separadas, coxa, costeletas, lombo, fígado para iscas, etc. Às fêmeas gordas, abundantes por serem mais fáceis de caçar nas correrias, e também por serem muito apreciadas na comunidade por mais saborosas, estava destinado um tratamento especial: aproveitavam-nas também para fazerem uma banha derretida que servia de condimento muito valorizado.

    Após as caçadas, o gado mais novo, o novoso, era o primeiro a ser comido porque mais tenrinho; mas, depois, evoluíram para os conservarem, com o objetivo de terem um viveiro, pois as caçadas eram cada vez mais longínquas, dado que o que restava das mais próximas, desbaratadas, fugia para longe.

    Na paliçada havia um recinto, especialmente sempre defendido por vários guardas, onde se alojavam os leitosos, presas de muito tenra idade, uma iguaria que constituía frequentemente um festim simbólico; e que só eram mantidos na amamentação enquanto fosse conveniente. O abate neste caso era bem mais simples: bastava, com uma mão, começar por elevar o leitoso por um pé e, depois, com a outra mão dar-lhe um violento soco na nuca, como se faz a um coelho. As cabeças proporcionalmente muito maiores propiciavam este tipo simples de abate. Limpos no interior eram então assados cuidadosamente, escalados ou no espeto. Imediatamente servidos depois, com a pele estaladiça, constituíam o supremo manjar daquela povoação indígena.

    A prática canibalesca não tinha o apoio de todos os anciãos conselheiros. Alguns argumentavam que os deuses não queriam que se comessem seres em tudo semelhantes aos da aldeia, porque também estavam sob a sua proteção. Outros diziam que com a paliçada ali sempre à vista, quando estavam a comer um pedaço daquela carne, lhes vinha ao pensamento o ser quando vivo.

    Este último argumento pareceu ser muito significativo e foi também por isso que se tinha decidido mudar a paliçada para um local um pouco mais longe da zona das habitações, ...quando um facto novo, preocupante, começou a alarmar a aldeia: uma estranha epidemia estava a atacar os habitantes, com muitos a aparecerem mortos antes do anoitecer. Os anciãos anticanibalismo disseram que vinha aí o castigo dos deuses.

*

    Na última caçada tinha sido apanhado um casalinho jovem, recentemente constituído. Ela estava já grávida, embora de poucos meses, e fora um suplício a longa e penosa caminhada até à Aldeia dos Jacarés, embora um pouco resguardada pelos conquistadores, dada a sua situação gestante de leitoso.

    O casalinho, depois, teve o bebé em seu poder durante muito pouco tempo. A certa altura, no desespero deles, foi levado para o recinto dos leitosos. Um dia, souberam que tinha sido já comido. Então, o jovem, protegido como reprodutor, quando ela ficou outra vez grávida, tomou uma decisão de vida ou de morte.

    Noite após noite, cavou um buraco por baixo da paliçada, que ia tapando com arbustos e levando os resíduos do trabalho para longe. Um dia, pôs uma tanga fingindo ser um habitante normal, saiu da paliçada, foi à plantação antijacarés, sacou sementes dessas plantas. Triturou-as depois com duas pedras, muito cuidadosa e demoradamente, em segredo. Sabia, por revelação dos carcereiros, que essas plantas eram um veneno para os jacarés; então podia ser que o efeito concentrado nas sementes tivesse algum efeito nos também canibais. Obteve um pó muito fino, de grão quase invisível. 

    Sem revelar nem à companheira o que estava a fazer, noite alta, depois de sair da paliçada, entrou sorrateiramente na cabana mais próxima e polvilhou todo o comer que viu, muito ligeiramente com o pó que obteve. Ora, na tarde do dia seguinte viu, num ajuntamento de canibais junto da cabana, serem retirados de lá dois adultos e duas crianças inertes, que nunca mais voltaram. Resultava.

    Era este o tal castigo dos deuses, ampliado de cabana em cabana, agora segredo revelado entre os prisioneiros, que formaram uma brigada de envenenamento. O castigo dos deuses era tal, que ultimamente os jacarés recusavam os corpos, e, para não se infestar a água, foi resolvido enterrá-los. 

    Quando a população dos canibais passou a francamente minoritária em relação à dos prisioneiros, estes, uma noite, saíram todos, apossaram-se das armas dos canibais, mataram muitos, forçaram alguns a serem, estes agora, fechados na paliçada. Poucos homens, muitas mulheres e crianças. Para trabalho escravo, foi a ideia.

    Ainda pensaram em pôr as mulheres canibais numa paliçada à parte, para desfrute masculino. No entanto, entre as mulheres anteriormente prisioneiras, havia muitas bem avantajadas, e estas opuseram-se a essa ideia.

    Os revoltosos montaram, então, uma aldeia com características similares às das suas antigas, usando os prisioneiros para os trabalhos mais duros. Só com a diferença de o Conselho ser agora formado com predomínio de mulheres bem gordas e relativamente jovens, pois, como prisioneiras, as mulheres eram anteriormente comidas antes de poderem envelhecer. O regime instaurado ficou, por isso, com completo domínio de leis femininas.

    Na nova aldeia, muita coisa mudou não só em relação à aldeia canibal, mas em relação às aldeias de que os novos habitantes provinham. Lá, os homens ficavam inativos, treinando-se só nas artes da guerra e da caça aos animais, e todo o trabalho doméstico e nos campos ficava a cargo das mulheres. Agora, na nova Aldeia dos Jacarés, as coisas trocaram. As mulheres, muito mais numerosas, só tinham a seu cargo os assuntos relativos às crianças. Tudo o mais era missão dos poucos homens, nomeadamente obter os alimentos na lavoura e cozinhá-los, bem como os demais trabalhos domésticos, como tratar da higiene caseira. A escravatura sexista, habitual nos patriarcados, invertera-se ali.

    Surgiu, porém, um problema complicado. No Conselho, as matronas concluíram que, só com vegetais, a alimentação das crianças era insuficiente em relação à que era habitual nas suas antigas aldeias. Assim, exigiram aos homens, também, o trabalho de caça como faziam anteriormente.

    Ora eles, atravessando a água como os canibais faziam, nada conseguiam nas redondezas e voltavam sempre sem a carne desejada, ante recriminação cada vez maior do Conselho ameaçador das matronas.

    Mas, uma vez, apresentaram carne às mulheres. Tinham esquartejado um prisioneiro. Então, o Conselho, surpreendido, reuniu para tomar uma decisão, num longo debate. Por fim, concluiu-se que, de facto, os prisioneiros eram não só inúteis, como altamente inconvenientes na alimentação necessária. Assim, para lhes darem alguma utilidade, resolveu-se começarem a comê-los. Então, o ciclo tenderia a repetir-se na Aldeia dos Jacarés, na necessidade de mais prisioneiros, mas não havia homens suficientes para isso. 

    Deram-se, ainda, mais transformações na nova Aldeia dos Jacarés.

    O Conselho acabou constituído só por mulheres-mães, consideradas seres supremos da aldeia.

   O das matronas tinha estabelecido, logo no início do canibalismo, depois aceite, que repudiava também o anterior hábito de se comerem os leitosos, porque, argumentaram, tal prática ofendia a lei dos deuses.

    Mais tarde, o Conselho das mulheres-mães decretou que todo o bebé nascido na aldeia passava automaticamente a ser membro da comunidade (como era costume nas aldeias não canibais) e mesmo que de mãe da paliçada. A parturiente era retirada, libertava-se de ser comida e, se fosse depois mãe de bebé com pai da comunidade, passava automaticamente a ter o estatuto de mulher-mãe.

    Instituiu também a celebração da noite de lua cheia, como uma homenagem à Mãe Natureza e Mãe Mulher. No princípio, o festejo era acompanhado do sacrifício de um escravo. Depois o Conselho ordenou que fosse substituído por um jacaré. Ora, não é que descobriram, então, que assados, aqueles jacarés eram um rico manjar!...

    Houve, por isso, nova mudança drástica na aldeia, com os homens a serem muito respeitados nas suas tremendas lutas com os jacarés, nova fonte inesgotável de alimentação. Assim, com o tempo, o Conselho só feminino foi posto em causa e o seu domínio apaziguador foi substituído, como é habitual, pelo turbulento masculino.