Problemas do paíS

INDICE

O jogo eleitoral não foi inteiramente limpo nas legislativas de 4 de Outubro (aqui)

Cortar os nós górdios que atam o país (aqui).

Confucianismo comunista. (aqui)

Previsões para o país (aqui)

 

O jogo eleitoral NÃO FOI INTEIRAMENTE  lIMPO

    O país foi surpreendido com as negociações do PS com o PCP e BE, que terão justificado o fracasso das negociações entre PS e PàF. Como disse o Dr. Francisco Assis, estas negociações são contranatura, atendendo aos respetivos programas, e foram sempre impossíveis, dados os princípios de PCP e BE contra a UE, a NATO, o Euro e dada a ideologia extremada que estes partidos têm. Embora bem inseridos na democracia, o marxismo que professam declarada ou veladamente, traz sempre o risco  de autocracia, em oposição frontal ao critério supremo da liberdade que enforma o PS.

    Tal arranjo não estava na perspetiva realista dos eleitores, não obstante a PàF ter alertado para o risco dessa eventualidade. Apareceu como efetivo no jogo eleitoral só depois de conhecidos os resultados, o que falseou o próprio jogo. Verdade que o secretário-geral do PS afirmara sempre que não havia tabus à sua esquerda; verdade que o BE levantara a hipótese de aceitar o programa do PS com alterações consideradas linhas vermelhas; mas a atitude do PCP na campanha fora a mesma de sempre, a de responsabilizar duramente o PS também pela austeridade. Os eleitores não contavam agora com esta sua atitude completamente nova.

    Num jogo democrático limpo, tudo deveria ter `estado em cima da mesa´ no ato eleitoral. Devia ter-se podido ponderar que, só com maioria absoluta, a PàF garantiria o Governo, pois ganhasse ou perdesse o PS, haveria sempre a hipótese de ser este último a formar Governo com a sua esquerda mais radical. Muitos que votaram PS na ideia de que assim forçariam a coligação a não ser tão soberba, ter-se-ão sentido defraudados, se nunca aceitariam a união que se fez. Moralmente, impunham-se novas eleições para o jogo ser mais transparente, como agora se diz.

    De facto, nada do que se passou é ilegal, mas a realidade é que o inesperado ofende a ética do inconsciente coletivo, e este raramente perdoa, como já sublinhámos. O PS está ele próprio a correr sérios riscos, infelizmente para o seu papel fundamental na democracia portuguesa.

    Depois, numa assinada declaração de ação conjunta (que está muito longe de ser um acordo com incidência parlamentar garantido, dadas as divergências não sanadas no que se refere à nossa relação com UE), o PS em conluio com o PCP e o BE rejeitou o Governo que, segundo a tradição, tinha sido empossado por ter ganho as eleições, e também na tradição do nosso regime de que nas legislativas o povo escolhe o primeiro-ministro que na ocasião lhe merece mais confiança para governar o país. Sublinha-se que no atual regime o povo não elege individualmente os deputados, mas listas de partidos, e que é nelas que escolhe o presumível primeiro-ministro.

    Com a sua decisão, o PS excluiu a hipótese que tinha de ser um partido charneira entre a sua esquerda e o Governo, para impor as mudanças convenientes; liquidou qualquer consenso alargado possível; dividiu o país em duas frentes completamente antagónicas e em perigosa guerra aberta (reparemos que no resultado das eleições temos o centro para o norte praticamente todo laranja e para o sul todo rosa...) e, em resumo, desagregou a paz nesse inconsciente coletivo, atropelando os hábitos adquiridos em dezenas de anos.

        Havia o sistema tácito de o Parlamento aceitar pacificamente maiorias relativas, na condição de estas encontrarem consensos à esquerda e direita para poderem permanecer. Os constituintes terão concluído, como se verificou de facto, que as maiorias absolutas, num regime partidocrático, permitem a ditadura abusiva dos partidos que estão dominantes no Parlamento (pois, controlando simultaneamente executivo e legislativo, decidem olimpicamente, como se fossem donos do país). Ou seja, as maiorias absolutas de partidos tendem, na sua ação, a confirmar a ideia original em Locke de que as maiorias nem sempre têm razão. Ideia que enformou o espírito das constituições depois estabelecidas, e de que o primeiro exemplo foi a dos EUA em 1787.  

     Em Portugal, agora só podemos ter no futuro: e se com maioria absoluta, “a tendência popular média: de alguma tolerância ao liberalismo, da social-democracia moderada e do prémio do mérito”; e, do outro, também só com maioria absoluta, “a tendência marxista do socialismo dito democrático: completa recusa de qualquer liberalismo e com bandeira assistencialista acima de tudo, mesmo que penalizando autocraticamente os mais capazes”. Ficou sem voz o centro que quer consensos e aceita o que for bom nos dois lados.

    Ou seja, deixou de existir o centro de equilíbrio que alguns dirigentes do PS defendiam, e sempre fora o critério do partido socialista. O argumento agora do PS foi de que o povo tinha dado maioria à esquerda (123 deputados contra 107), mas esquece que a malfadada disciplina de voto deturpa a realidade. O resultado poderia ter sido outro se o conjunto dos deputados tivesse votado segundo a sua consciência e não feitos serventuários dos partidos (convertendo assim a Assembleia da República não num Respeitado Fórum de representação do povo que o elegeu, mas numa Câmara ao serviço dos partidos: a partidocracia).

    Se os deputados tivessem votado livremente, de certeza aquilo que o povo pretendeu ter-se-ia conseguido e surgiria um equilíbrio propiciador de consensos, também à esquerda nas suas justas queixas. Mas então sem as guerras que poderão dilacerar o país, com elevados prejuízos na harmonia social. Não é aceitável pensar-se que houve sobretudo da parte do PS a ambição do poder (PS e não só do seu secretário-geral, pois foi quase unanimemente apoiado). Dir-se-á que foi o pensar-se que assim seria mais fácil desfazer o que de mau foi feito pelo anterior Governo. Só que propondo-se governar depois de ter desiludida e manifestamente perdido nas eleições, o PS gravemente eliminou a possibilidade de no futuro haver governos de minoria. De facto, mesmo que ganhe as eleições fica sujeito a nem iniciar o Governo se houver também um movimento no Parlamento que se oponha.    

   Por outro lado, a elevada abstenção e os votos nulos nas legislativas de 2015 atingiram quase o limite de recusa completa do povo sobre o regime (43,07 abstenções e 3,7 nulos). O regime político português parece estar mesmo a ser mal aceite pelo povo. Talvez a dificuldade de consensos, já prevista na campanha eleitoral, para um plano de longo prazo, fosse uma das causas. Então, a solução depois escolhida pelo PS ainda poderá ter agravado mais o sentimento de repulsa nesses não-eleitores. O PS forçou uma mudança que se sente ser necessária, mas era só essa que o povo queria ou outra mais significativa, de concórdia na salvação do país e nos horizontes futuros? A verdade é que a PàF ganhou folgadamente as eleições... 

    É nestas alturas de desconchavos que surge às vezes uma vontade forte, que põe os superiores interesses do país acima de todas as coisas. Foram também disparates destes que deram origem ao 28 de Maio, com os militares a invocarem a sua honra de serviço à Pátria, para nos imporem uma ditadura e depois Salazar. Há a certeza de que nos livraremos de tal levantamento agora, com o país em ebulição, dividido ao meio?

   E o que vai ser do regime se perdermos um PS de charneira que, desde a impressionante coragem de Mário Soares na Fonte luminosa, o tem equilibrado? O regime vai implodir, como há muito se receia, em vez de ser mudado paulatinamente a bem? Dr. António Costa, como vai agora, por exemplo, conseguir as mudanças exigindo dois terços, algumas que, com tanta visão de futuro, consta defender?

  D' Silvas Filho

 

Confucianismo comunista

       Comecemos por lembrar que a estrutura da mentalidade chinesa privilegia o mérito, na ética confuciana. A prática marxista de alinhar toda a gente, numa sociedade sem diferenças, contraria Confúcio (Ver Confúcio em Pensamentos Eternos). Não admira que, com o tempo, os extremismos marxistas do alinhamento, impostos por Mao Tse Tung, se tenham atenuado.

    É facto que se critica muito a China por, diz-se, na sua ditadura comunista não respeitar completamente o texto dos Direitos do Homem nem o ideal democrático, com partidos representativos. Mas esquece-se que, em contrapartida, não existe nela a bagunça da luta partidária. Esquece-se também que não é possível na China nem o Presidente nem o Primeiro-Ministro poderem ter mais que dois mandatos, e que isto impede o abuso de ditadores vitalícios. Em rigor, só por isso, o regime chinês não é hoje uma ditadura de um qualquer títere mais sua camarilha, como é hábito.

    Quanto aos malefícios de a China ser uma autocracia com justiça diferente das organizações democráticas do Ocidente, lembra-se que 18.º Congresso Comunista Chinês começou a discutir a instauração do Estado de Direito, para evitar o desprezo pela lei nalguns dirigentes, escudados no poder que a ditadura lhes dá.   

    Citou-se atrás Reiman e o seu capitalismo marxista. Ora, se analisarmos a situação atual das civilizações mundiais, temos aqui, na civilização chinesa dos nossos dias, um exemplo que talvez possa comparar-se com o regime preconizado por Reiman. Hoje, o dito comunismo chinês também permite a existência de magnates (contrariando frontalmente Mao, mas com mão dura, de bala na nuca até para eles).

    Esta questão da pena de morte é que pode ser criticável. Defende-se este extremo na China, porque, num território de tanta gente acumulada, é difícil ter uma boa parte dessa população detida, pois tendem a ser “muitos, em tantos possíveis”. Uma solução de prisão perpétua consome recursos, que podem ser exorbitantes em instalações, alimentação, etc., no caso de muitos reclusos. A única solução a que a China terá chegado, nessa contingência demográfica ampla, terá sido a de que não tinha outra possibilidade senão eliminar os elementos da sociedade desagregadores sem remédio. Quem discorda desta solução, precisa de se lembrar, também, que o argumento cristão de que a vida humana pertence a Deus, não se devendo matar (um dos mandamentos de Moisés) fica incoerente com as matanças feitas pela própria cristandade.

    Também se pode argumentar, a favor da pena de morte na China, o facto de que tem uma acusação cuidadosa, eficaz e que muito raramente se engana, pois há quase 100% de condenações em tribunal e poucas absolvições.

    Por outro lado, porém, em favor daqueles que condenam a pena de morte, igualmente se pode dizer que a justiça chinesa não é infalível, como também não é a do Ocidente. Foi ultimamente relatado que um rapaz executado no passado tinha agora sido considerado inocente. A volumosa compensação monetária, que irá ser dada à família do executado, não lhe restitui a vida

    O autor deste livro não aceita a pena de morte. Preferiria qualquer operação cerebral, que evitasse a agressividade futura do delinquente, aplicada só nos casos graves, de flagrante delito, sempre reversível e permitindo uma ação útil do sentenciado que lhe desse qualidade de vida e contribuísse para a sua manutenção. Claro que esta solução esbarra sempre com encargos: os do acompanhamento depois e de haver meios para as intervenções médicas, em larga escala, numa demografia muito densa. Matar fica mais barato para a sociedade...

     Na estrutura da vivência chinesa (excluindo máfias) está a pacificidade. Confúcio recomendava a paz. A China não é um país guerreiro em potência, como, por exemplo, no passado foi o Japão dos samurais. Está a expandir-se agora em força por todo o mundo, mas não mobiliza particularmente exércitos para a sua ação externa (se o quisesse fazer, podia formar uma força quase imparável em quantidade).

    A sua expansão está a fazer-se, de facto empenhadamente, mas pacífica, em vários níveis:

    Por um lado, com as frugais formiguinhas chinesas, que se estão instalando por toda a parte, com artigos de baixo preço. Liquidam o comércio retalhista tradicional, mas prestam ao povo onde se instalam o serviço de embaratecer a oferta e baixar o custo de vida.

    Por outro, as grandes empresas chinesas, normalmente com influência do Estado Chinês, estão adquirindo empresas importantes. Em Portugal, foram já muitas e significativas, num investimento de muitos milhares de milhões de euros. Assim como havia no entendimento de séculos Portugal-China e no recanto de Macau, uma ligação amiga da Europa com esse imenso país, também agora, no mesmo entendimento, que se deseja duradouro, pode haver neste recanto da Península uma ligação sempre amiga e profícua da China com a Europa. Oferecendo ainda a vantagem de essa ligação poder estender-se à lusofonia.

    O autor está agradecido à Alemanha pela útil colaboração económica que mantém com o nosso país (uma apreciável parte do valor da nossa exportação deve-se a investimentos alemães) mas não pode esquecer dois factos significativos da sua vida.

    Numa visita profissional que fez a uma feira na Alemanha, aconteceu que no caminho entre a paragem do metropolitano e as portas da feira, tropeçou num degrau inesperado e caiu. Pois a multidão, que também saíra do metropolitano e o rodeava nessa caminhada, limitou-se a desviar-se do acidentado; e uma matrona avantajada abanou mesmo a cabeça de desagrado pelo desvio a que foi obrigada.

    Em Portugal, muito mais tarde, à porta dum modesto estabelecimento de chineses, aconteceu o autor também tropeçar e cair. Neste caso, veio disparado da loja um jovem chinês, pressuroso, abandonando o seu local de trabalho, indagar se o autor precisaria de ajuda.

    Podem ter sido dois casos acidentais que não caracterizam de maneira nenhuma os dois povos, tanto mais que aconteceram em alturas muito diferentes da idade do autor (cerca de 30 anos mais tarde), mas a verdade é que o impressionaram profundamente pela sua diferença emotiva. .

    Voltando à questão do sistema político chinês atual, lembremos que a China já no passado exportou a sua civilização para todo o mundo em redor. Pode ser um exemplo que mundo se veja convidado a estudar mais profundamente, até sem estar sujeito a quintas colunas ideológicas. O exemplo de um regime híbrido: virtudes do capitalismo, com o prémio confuciano do mérito e o respeito pela propriedade, mas com razoável distribuição marxista.

    Esclarece-se que se condena e não se deseja um regime com características de repressão e pensa-se que a liberdade democrática é um bem inestimável, mas deve reconhecer-se que num país de 1300 milhões de pessoas e num comparativamente comprimido espaço vital, a gestão é muito difícil (densidade populacional, em número de habitantes por km2 , na China 136, nos EUA 30). Além disso, o povo chinês parece já ter interiorizado desde séculos a necessidade de muita autoridade (Confúcio recomendava o respeito pelos superiores hierárquicos).

   Também é verdade que a Índia, com um espaço vital ainda mais saturado (328 hab./ km2) enveredou pela democracia, não pela ditadura. Mas não se pode esquecer que a China em pouco tempo disparou para o estatuto de segunda potência económica mundial, o que, para os arautos do “crescimento acima de todas as coisas”, o mérito tem de ser considerado  (PIB em 2013 em mil milhões: EUA 15.653; China 8.250; Japão 5.984; Alemanha 3.336; ..... Índia 1.946 [Portugal 210...]).

     Em Shenzhen, na data de elaboração desta nota, estava em construção na China um arranha-céus com 660 m de altura, o segundo maior do mundo.  

    O que não se pode esquecer também é que esse crescimento súbito, muito à base de energia a partir da queima do carvão indígena, poluiu de uma forma impossível o ar nalgumas cidades chinesas. Ou a China desenvolve rapidamente outras formas de energia e outro tipo de transporte nas cidades (mais elétrico?) ou a poluição fá-la-á declinar fatalmente na curva de crescimento, como é de esperar sempre nas funções exponenciais (os 10% de crescimento que a China já teve implicou uma duplicação do PIB em 7 anos e mesmo o crescimento de 7% uma duplicação da riqueza total produzida em 10 anos). Imagina-se o que será uma duplicação económica em tão pouco tempo? Não ficam as “estruturas a rebentar pelas costuras”? Nalgumas cidades as vendas de automóveis começam a ser condicionadas na China.

   Por todo o mundo há aprendizes de feiticeiro obcecados com o sortilégio do crescimento. Confúcio disse: «Não se apressem, vejamos como se fez no passado.»

    A lição que a China nos traz não é só pensarmos se é possível `a quadratura do círculo’ política: entre o hibridismo capitalismo-marxismo e a preciosa liberdade democrática; levanta outro problema, a da `quadratura do círculo´ económica: o desejo de aumento do PIB dum país para o seu engrandecimento e distribuição de mais riqueza, versus as limitações do crescimento exponencial.

    Quanto ao primeiro problema, a descompressão súbita da autocracia na China pode conduzir a uma barafunda semelhante à que aconteceu com a descompressão na União Soviética depois da Glasnost e da Perestroika de Mikhail Gorbachev e finalmente à sua desagregação.

    Quanto ao dilema económico, não obstante  um crescimento tão súbito e significativo, que atirou o país para um nível mundial de primeiro plano e criou tantos magnates, a equidade na China nunca foi descurada, como verificaremos nos valores seguintes.

    Um fator que mede a desigualdade nos países é o coeficiente de Gini. Consiste na relação entre `os valores somados de todas as desigualdades duma população´ e `a completa igualdade´ nessa população.

   Este coeficiente seria igual 0 se a curva de Lorenz estivesse a 45º, portanto sem desigualdades nenhumas. Então, por exemplo, 50% da população detinha todo o 50% do rendimento e não menos.

    Ora em percentagem, segundo o Banco Mundial em  2012, verificava-se para o coeficiente de Gini:  EUA 40,8; China 42,5, havendo países com mais de 60% de desigualdade. Note-se que os países nórdicos primam pela igualdade, quase todos com cerca de 25%.

   Repare-se agora que a China consegue este resultado notável com uma densidade populacional quase 5 vezes a dos EUA, como vimos atrás, e com um PIB per capita muito inferior ao dos EUA (segundo o FMI para 2013 e em US$: EUA 53 100; China 6747).

      No entanto, nem tudo é perfeito.

    O coeficiente de Gini avalia o conjunto, não avalia diferenças entre estratos (alguns podem estar desequilibrados mais positivamente outros mais negativamente, anulando-se as diferenças no somatório).

   Ora, embora o regime híbrido chinês consiga um coeficiente de Gini semelhante à da economicamente mais avançada estrutura capitalista do mundo, a verdade é que os malefícios da ditadura na China, e o consequente desvio de bens para uns quantos beneficiados, aparecem na diferença R/P (relação entre o rendimento dos 10% mais ricos e os 10% mais pobres). De facto, em 2012 verificava-se para a R/P: EUA 15,9; China 21,6. Paradoxalmente, o escândalo marxista, dos regimes capitalistas, de haver uma enorme diferença entre ricos e pobres, ... era em 2012, afinal, nos EUA inferior ao do dito comunismo chinês...  

   Haverá muito que estudar nestes exemplos, devendo ponderar-se também a maior igualdade nos países nórdicos da Europa.

   Mas não nos devemos deixar confundir com ideias feitas. Será que a sociedade ideal é aquela que conduz ao coeficiente zero de Gini, da equidade perfeita e de R/P = 1 (não haver diferença de rendimento entre os mais ricos e os mais pobres)? Quando os extremistas da política falam em acabar com as desigualdades sociais sabem do que estão a falar? Pensarão mesmo em pôr as capacidades completamente a servirem as necessidades no chavão marxista, sem incentivarem devidamente aquelas? Esquecem que a evolução material e espiritual humanas exigem o prémio do mérito?

   Na altura do PREC em Portugal, havia quem defendesse, na aulas universitárias de economia, que a capacidade restrita de fazer um só fato num dado tempo tivesse a mesma paga que a capacidade de fazer cinco fatos nesse tempo. Como em muitas coisas, o marxismo copiou utopias anteriores (e são muitas).  Talvez tenha tentado aplicar a parábola de Jesus sobre a mesma paga aos operários contratados em fases diferentes do dia; só que esqueceu que as circunstâncias diferem: na parábola não está em causa a capacidade e o empenhamento dos operários, mas só a altura em o contrato é feito.

    Imaginemos a aplicação do coeficiente mesmo zero de Gini, a uma fábrica. Só numa cadeia de produção, em que todos trabalham a mesma peça, todos poderiam ter a mesma paga. Mesmo assim, seria necessário que nenhum elemento mais fraco limitasse por sua causa o possível melhor andamento a cadeia, ou que não houvesse operações especializadas que exigissem talento ou empenhamento particular, e, logo, uma compensação extra para se conseguir a sua motivação indispensável ao andamento.

    Em resumo, a equidade tem de ser procurada em igualdade de condições (de oportunidades, sim, mas também de realizações, estas dependente da capacidade e do empenhamento) e não abstratamente, só para que não haja diferenças.

    O capitalismo sempre soube lidar com esta lei natural, fomentando a emulação e a superação pessoal, e daí o seu triunfo relativo na criação de riqueza até hoje.

    Um coeficiente de Gini baixo poderá contribuir para uma melhor coesão social, mas não favorece a evolução dum país. Talvez lembrando os insucessos económicos das experiências de Mao, os novos governantes da China não terão esquecido Confúcio em virtudes que o Mestre considerava fundamentais: sabedoria e mérito.

«Até que o Sol brilhe,
acendamos uma vela na escuridão.»

        Uma nova democracia

        A civilização dita Ocidental (Europa, Américas, Austrália), inspirada na Grécia Antiga, inventou o Estado de Direito, os Direitos do Homem, a Constituição de proteção das minorias, a liberdade de expressão e de reunião. Qualquer regime que lhe faça perder estas virtudes, é uma regressão.

   Os arautos da autocracia é que são agora o maior perigo.

    E, de facto, é `o desejo de um regime democrático perfeito´ o que representa agora a suprema utopia, depois de a finança, insistimos, se ter apoderado da democracia sob o disfarce da representatividade, impedindo o aperfeiçoamento da vida em sociedade, que não devia ter ganância nem exploração dos simples. As Expressões de Andrew Simms no seu livro Travar o Apocalipse traduzem o extremo a que a finança chegou na sua prepotência: «..... o sector financeiro só  pensou em si próprio»; «correrem riscos com o dinheiro dos outros»; «proventos obscenamente elevados»; «despudorada preocupação ou empatia  pelas consequências das suas ações»; «rever a regulação da finança»; «dar nova vida a uma maior ética financeira».

    Se meditarmos na história, conclui-se que no estádio atual da mente humana (só 10 000 anos de civilização ante milhões de vida selvagem), os grandes reformadores sempre concluíram que precisavam de uma ditadura para conseguirem as mudanças necessárias contra os interesses instituídos (Lenine, Hitler, Salazar...). Até as religiões, quando adquirem poder temporal impõem logo teocracias para mudar a sociedade; e lembre-se o que fez a cristandade com a Inquisição e o que faz agora o Islão quando governa um país com a sua Sharia. Aliás Marx só dispensaria a ditadura já numa fase muito avançada de aplicação da ideologia.   

    Ora o engrandecimento ou mesmo a salvação de um país não podem ser obtidos à custa do sofrimento penoso do povo ou da completa limitação dos seus direitos, nomeadamente à liberdade, porque o povo é que é o verdadeiro país.

    Os novos tempos das redes sociais e de maior força e consciencialização das populações irão certamente trazer mudanças sociais que nem se imaginam. O que torna indispensável proteger sempre o ideal democrático.

    A subordinação à coletividade não deve ultrapassar muito o limite daquilo que esta dá em troca no presente ou para os vindouros, senão caímos sempre em tiranias de extorsão.

   Por isso se espera, se anseia, que uma nova geração de políticos possa aperfeiçoar as atuais democracias, dando satisfação ao povo dos novos tempos, evitando um movimento popular incontrolável, que tudo pode subverter, propiciando a clássica desculpa com a necessidade de uma ditadura para impor a ordem.

   Deseja-se uma nova democracia: uma utopia que defenda o ideal democrático, mas impeça os abusos. A palavra política vem do grego, politiké, a arte de governar bem a cidade. É uma arte, mas é também uma ciência e um dom transcendente. Precisamos de novos políticos com o entusiasmo de pensar que podem mudar o mundo. Entusiasmo vem do grego, enthousiasmós, significando inspiração divina.

    Um Francisco laico, que ouça e pratique o clamor que nos deixa o religioso? Divindade ou não de Jesus, diz-se que o que importa é aceitar que são divinas as palavras do Evangelho, ...em que se baseia o Papa. Palavras válidas passados vinte séculos, que, por isso, voltam sempre ao coração dos homens; e, se as palavras do Evangelho são divinas, o Deus do sonho estará nalgum lado. 

         Religião

        O Sonho... Um Paraíso onde tudo é belo, tudo é perfeito, e não há a maldade e o egoísmo humanos. Com um Deus nesse Paraíso, cuja suprema felicidade humana está em contemplá-lo. O sonho dum Criador (paradoxalmente omnisciente e omnipotente...), na complexidade e permanente evolução dum Universo que exige a adaptação humana. Uma utopia, que parece estar nas ligações inatas da mente, como compensação de agruras e esperança de futuro.

    Deus. Para as religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), Deus é ora um severo beduíno do deserto, ora um cordeiro de sacrifício, ora um persuasor se necessário pela “Jhiad”. Nestas religiões, o Criador é, na sua obra, um autocrata, mas também omnitudo, perfeito. Religiões que se arrogam o direito de estabelecer a indiscutível verdade dos seus credos, condições expressas para se ganhar o Paraíso e proibições terminantes sob pena máxima no Além (até se guerreiam entre si nessas verdades específicas...: comer carne de porco pode ser ou não uma culpa...).

    O facto é que estas religiões (também ditas do Livro) não passam de 50% da humanidade. Então, para a outra metade, com algumas crenças em que há práticas condenadas terminantemente pelas igrejas abraâmicas (por exemplo o direito ao suicídio, e lembremos o haraquiri honroso japonês...), para essas crenças, o Paraíso do Deus-Pai abraâmico estará decididamente vedado, e os seus praticantes lançados no tal Inferno das dores eternas, ...depois do tempo tão breve da vida na Terra?

    Ora na utopia pura, numa religião ideal, um Deus não o é só de metade da humanidade. Por exemplo, Buda, Confúcio (cerca de 2000 milhões de seguidores) nunca disseram que eram deuses e são venerados quase com tal. Para os seus crentes, o Deus Consolador estará também nalgum lado.

    Ou Deus estará em toda a parte, na imagem de Espinosa. O Deus comum estará, é em tudo o que for uma “caminhada do espírito”, em qualquer religião tolerante, ecuménica. E nessa caminhada, as religiões são estimáveis, devem ser ouvidas.

   Na Católica, o Papa Francisco veio agora atirar com uma pedrada no charco da descrença, acendendo a vela na escuridão. Mas a Igreja Católica desacreditou-se com o seu passado e com a antinomia que mantém entre a pompa que ostenta ainda e a caridade que generosamente pratica. Além de que a Curia, anquilosada em tradições, não consentirá em políticas civis arrojadas que ponham em causa a sua diplomacia típica de não afrontar nunca o poder, agora o imenso financeiro. E prevendo uma oposição fatal, o Papa já diz que será uma sorte se o matarem, ponderando talvez que esse sacrifício poderá ter implicações no tempo semelhantes ao de Jesus, no mais injusto suplício da humanidade.

    A não ser que surja uma religião agregadora do Deus universal dos humanos (a Bahá’i, do Deus global único, perseguida, não parece ter força suficiente imediata para tanto), a não ser que surja essa religião, também de sonho, não se acredita que a nova revolução social venha da religião.

     A revolução (com todas as letras) poderá vir talvez é de um movimento popular, imparável, contra os abusos (que já foram nos escravos da gleba, depois nos proletários da indústria e hoje na imensa classe média espoliada). Movimento que não se deseja virando tudo do avesso, como já aconteceu no passado (exemplo: 1789, 1917), mas moderado e que estabilize num regime onde o povo ponha os políticos na ordem, seja mais ouvido e diga terminantemente «Não a um dinheiro que governa em vez de servir», nas iluminadas palavras de Bergoglio.