NÃO ESTADISTAS E A PANDEMIA

 

    No fim de 2019, prolongando-se por todo o 2020 e com vaga avassaladora em 2021, o mundo tem sido assolado por uma pandemia traiçoeira viral, que ataca podendo deixar o portador sem sintomas mas com capacidade de contágio, sequelas graves na recuperação e mata em grande quantidade (dois milhões de mortes pelo vírus em janeiro de 2021, sem considerar as que indiretamente provocou, mais cerca de um milhão).

   A sua principal caraterística é a de atacar fatalmente sobretudo as pessoas mais idosas (40% em pessoas com 80 ou mais anos). Já foi, por isso, considerado que favorece a eugenia da espécie nos países desenvolvidos, nos quais a pirâmide demográfica está com excessivo índice nos estratos mais idosos.

   O que deu lugar a teorias de conspiração:

   A de que o vírus foi criado justamente com essa intenção eugénica: para resolver o tremendo problema dos encargos com os idosos, na manutenção da sua saúde, mais precária, e nos subsídios de reforma, assim insustentáveis com o tempo. A indiferença com que em Portugal os idosos não em lares (a maioria dos que morrem) tinham sido relegados para uma segunda fase da vacinação dá que pensar...

   A de que a obra criativa é chinesa, para anquilosar a economia ocidental. O facto é que, enquanto esta entrou em regressão de grande amplitude, a China ficou com o seu PIB em crescimento...

   Teorias da conspiração à parte, a verdade é que a pandemia atirou com as economias ocidentais para o caos, no assustador número de mortes, sobretudo de quem tem menores resistências; e no confrangedor aumento de desemprego, sobretudo de quem tem menores defesas. Não é uma pandemia igualitária, não, pois obedece às leis naturais da vida, segundo Darwin. Nisto, as ideologias sociais, como as socialistas distributivas ou marxistas espoliativas, nada valem.

   O que vale é a presciência dos grandes estadistas, que conseguem proteger bem os seus cidadãos. Estes grandes estadistas não se limitam a ser ativos na luta contra o infortúnio, mas são proativos e só assim são grandes, por tomarem medidas a prevenir o que de mau pode acontecer.

   O que fizeram Trump e Bolsonaro (defenderam que se tratava de uma gripezinha) deu origem a muitas fatalidades que se poderiam ter evitado; pelo contrário, o que outros governantes evitaram de mortes atesta o seu valor de estadistas. Comparemos só duas atuais grandes economias do mundo e, também à parte, Portugal (não há segurança nos números da China):

   Mortos em janeiro de 2021:

   EUA 406 000, Japão 4800; Portugal 9600.

   População milhões:

   EUA 330, Japão 130, Portugal 10.

   Mortos por milhão de habitantes:

   EUA 1230, Japão 37, Portugal 960.

   A diferença é abissal na forma como os estadistas destes países enfrentaram a pandemia. Ora, os nossos governantes, neste aspeto, não diferiram muito de Trump no seu procedimento censurável.

   Lembremo-nos de que a missão dos governantes é escolher as melhores soluções e impor a lei, contra o arbítrio dos cidadãos, à semelhança dos pais que corrigem, nos filhos, os procedimentos antissociais. A política é, por definição, a arte de governar bem a cidade, não especificamente ter o máximo de aprovação possível no momento, porque a membrana individual é muito naturalmente egoísta. Mas a politicocracia que nos domina bate-se na essência para a sua aprovação pelo voto.

   Tenho na minha página um artigo que designei por O golpe de génio dos grandes Estadistas, no qual critico os atuais governantes portugueses por não o serem: confinaram em excesso, tudo, e alardearam Portugal ser um milagre, quando na altura bastava só confinar umas zonas restritas do país; andaram depois em experiências de limitações e em atraso das medidas necessárias por questões políticas, quando se previa já o desastre. São moralmente responsáveis agora pelo colapso, após o pretenso milagre.

   São culpados eles e o regime que montaram, e que acabou, também por isso, a pôr em causa a democracia representativa em Portugal. Admite-se lá que uma Constituição, considerada pelos marxistas inatacável, não permita adiar umas eleições obviamente suscetíveis de muitas infeções e de uma abstenção desprestigiante? (Acabou por ser 60%, isto é, o Presidente só foi aprovado por 40% do universo dos votantes possíveis...) Ou que, se o permitisse, a autocracia partidária não tivesse dado luz verde a um Presidente que foi investido para a orientação suprema, mas, nisto, se deixou docilmente orientar?...

   Diz-se que há autoridade legal, dada a lei estabelecida, mas que autoridade ética sai da presidência eleita nestas condições? Se é ética esta lei só porque está estabelecida na Suprema; então, está perfeita a catalogação das leis na Constituição, se nem todas as leis são éticas no inconsciente coletivo?

   Defendo no meu livro Estatutos da Sociedade Perfeita que uma das qualidades do bom governante, além da integridade, desapego pela riqueza e conseguir a ressonância multiplicativa, é a da antevisão. Os nossos falharam, embrulhados numa mescla de contradições: nas máscaras que disseram ser de utilidade duvidosa, nos testes que começaram por racionalizar, na quase completa liberalização política no Natal de 2020, nas exceções dos confinamentos praticamente sem ele, no atraso das medidas imperiosas.

O colapso assustador nos hospitais, pondo em causa a propalada excelência do SNS, em rigor descapitalizado para a sua bandeira política, o confrangedor número de mortos, que chegou a ser o maior do mundo por milhão de habitantes, ...tudo envergonhou o país, como um deplorável exemplo, na altura em que assumia a Presidência da UE. Que dirias tu, hoje, dos nossos “barões assinalados”, Luís de Camões?